Por Antônio Rangel Bandeira, Fotos de Jose Medeiros e Arte Tom Velleda Campos


 Quem vê e ouve uma cantora, realizando e conquistando sua glória, nem sempre pode imaginar o difícil caminho que a artista teve que trilhar para obter, na sua arte uma posição destacada. Parece fácil cantar, sobretudo, porque é próprio do ser humano cantar; mas, não é fácil, é difícil, é... dificílimo. A voz, todos a possuem em estado de palavra. Até conseguir transforma-la num dos mais perfeitos, ou talvez, no mais perfeito instrumento musical, a artista tem que submeter a estudos tão intensos e, ao mesmo tempo, tão absorventes, que para vencê-los, deve possuir espírito de disciplina e força de vontade, verdadeiramente admiráveis. Mas, ainda assim não será uma cantora, se não possuir talento. 


 Quais são, no entanto, esses árduos caminho da arte do canto? E por que são eles tão árduos assim? Se o leitor está interessado na resposta a essas perguntas, acompanhe a vida artística de uma cantora. Quando aqui nos referimos á vida artística de uma cantora, desejamos limitá-la a seu período de formação artística, de aprendizagem técnica, até o momento em que está apta para iniciar a sua carreira e, de fato, a iniciar satisfatória, ou mesmo excepcionalmente. Esse último é o caso de Olga Maria Schroeter, até ontem em fase de estudo e de preparação, hoje na fase da interpretação e da criação artística; através dela poderemos acompanhar como se faz uma cantora.

 


Vamos surpreendê-la há alguns anos passados pela cidade de Erechim, no Rio Grande do Sul. Uma criança loura rebelde estuda violino e pintura e sonha com um título de professora, como a maior das glórias.   
 Um dia porém, teve uma súbita revelação: ouvindo uma cantora interpretar um lied de Schubert, descobriu a música e,com ela, o canto e chorou copiosamente. Era como a artista que nascia. Daí  em diante, passou a viver num mundo novo, cheio de sonhos e melodias. Olga Maria cantava. Como de seus olhos saíram lágrimas agora de seus lábios saía música, em estado nascente. Era necessário cantar livremente, para que sua vocação, subitamente descoberta, criasse raízes na sua própria vida. E criou raízes, raízes tão profundas. Tão profundas, que hoje mergulhamos no mar de sua sensibilidade, para ir buscá-las puras, como todas as fontes.


 Ao mesmo tempo, que se habilitava para a vida, com os olhos bem abertos para os mistérios, sonhava com os mistérios da arte. Esses, acalentávamos bem no fundo do coração.  E ainda e sempre cantava. 
  Em casa, na escola e já, algumas vezes em festas de caridade. A sua voz já iluminava  a face de muitos ouvintes e surgia, ainda, que de modo velado e indeciso, com as marcas das possibilidades e as esperanças do futuro. Então, começou a estudar a sua arte, com um professor particular. Depois, no entanto, dos primeiros exercícios de vocalize, compreendeu que necessitava de um mais regular e completo e matriculou-se no curso de canto do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, de UFRGS. ( Universidade Federal do Rio Grande do Sul ).


 Nessa época, além dos exercícios vocais, do estudo da arte do canto, propriamente dito, estudava as disciplinas correlatas  e informativas do canto, como teoria musical, história da música e etc...

 Muita coisa aprendeu e sentia-se feliz. Ela tinha agora a face iluminada pelo sopro da arte ambicionada e pela juventude que chegava a seu tempo. Era o trigo de seu cabelo louro que desabrochava para a vida e para a arte. Olga Maria cantava e seu canto anunciava  a artista que um dia ela seria. E seu curso prosseguia; a jovem uniformizada blusa branca e saia azul não se perdia no Palácio da capital gaúcha. Ela sabia muito bem o que queria.

 Terminado o curso com distinção, foi contemplada pelo governo de seu estado natal, com uma bolsa de estudos no Rio de Janeiro. Recebeu o seu primeiro premio com muita alegria toda especial, pois com ele abriam-se para ela novas possibilidades para uma melhor identificação com sua arte. E partiu e veio para esta cidade de São Sebastião. O seu curso de aperfeiçoamento veio fazê-lo, deliberadamente, com o professor Murillo de Carvalho, um verdadeiro mestre, um artista, um amigo. Então Olga Maria Schroeter tomou conhecimento significado de certos segredos do canto, do que ela a muito já suspeitava da sua existência.  

Feito o estudo fisiológico da voz - as relações da emissão da voz com diafragma, dos pulmões, os brônquios, as traquéia, a faringe, os lábios glóticos, etc... percebia, no entanto, que uma boa cantora necessita além de uma boa voz, de inteligência, de expressão, de consciência interpretativas e de muito amor à arte. Precisa ser uma artista, isto é, possuir o dom da agilidade e da ordenação da razão, o dom da emoção e da contenção, o dom da construção consciente e apaixonada da beleza artística.  E esse dom fundamental Olga Maria Schroeter o possui e isto logo descobriu o seu professor, que ao ver concluída sua bolsa, lhe  pediu para continuar nos seus estudos. Com mais dedicação ainda, Olga Maria continuou-os incansavelmente. Por outro lado, compreendeu que todo artista deve alimentar-se, além da sua, do pão de outras artes.



   Assim, quis aproximar-se da grandeza do cinema, do teatro, da poesia, etc... e, da sua experiência, saiu enriquecida e certa de que nenhum artista deve limitar-se a ser um prisioneiro de sua arte, sobretudo, porque o mistério da criação artística é o mesmo para todas as artes.
Já era tempo também  de começar a sonhar com os seus primeiros contatos com o publico. Por isso, submeteu-se a um concurso para solista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Aprovada unanimente, cantou com essa orquestra, sob regência do maestro Eleazar de Carvalho, numa dominical no Cine-Teatro Rex, o Recitativo e Ária do  Anjo Gabriel, da cantata " A Criação" , de Haydn e o  Recitativo e Ária de Iphigénia da ópera" Iphigénia in Tauride", de Gluck. Sua atuação como solista da maior orquestra sinfônica do país - uma atuação de elevado cunho artístico - projetou-a no panorama musical da Capital da República.  Era a sua carreira que começava e começava de maneira auspiciosa, mas, ainda não era tudo; o recital que preparava para a serie de Intercâmbio Cultural da A.B.I, é que seria a prova mais decisiva para seu talento e para a sua vocação. 



Olga Maria Schroeter confiante em si própria, estudava, trabalhava o seu programa, com seriedade e paixão. A critica sobre ela, daria a palavra definitiva, mais Olga Maria Schroeter pensava na sua arte, no seu próprio destino de artista que estava em jogo. Em jogo estava mesmo, mais do que seu destino de artista, a sua própria vida, pois leitor amigo, para um artista, a arte é a própria vida. São assim todos. E Olga Maria é uma artista. Isso, alias foi o que dela disse a mais autorizada critica, consagrando-a como verdadeira cantora. Na verdade, é assim que se faz uma cantora, mas quem consagra é a critica, que é uma espécie de filtro da glória artística. No caso de Olga Maria Schroeter, que disse dela  a critica? Tornou-se ela realmente uma cantora? Não foi em vão o seu sacrifício à arte? Olga Maria Schroeter é um modelo ideal para a história do nascimento artístico de uma cantora. Se não vejamos: Marc Berkowitz, no "Brasil Herald", disse que seu recital "put her immediately among the best of Brazilian concert singers" e que isto é apenas o começo, enquanto Andrade Muricy- uma grande figura de escritor musical- no "Jornal do Comércio" considerou-a" uma consciência artística invulgar", a ponto de dizer que, no momento de real prazer", que foi a parte do programa dedicado aos mestres do lied alemão, "o jovem soprano estava à vontade e admiravelmente". Roberto Lira Filho, na "Revista da Semana", registrou a ''voz de rara beleza, habilmente explorada e sua muito boa escola"; R.Bn " a Noite", o seu raro senso artístico, " Chléo Goulart" O mundo", o "timbre maravilhoso", "notável e encantador de sua voz, Ademar Nogueira, "Diário Trabalhista", o seu "domínio"  já bem apreciável da técnica, assim como convincentes qualidades interpretativas, ' D´Or, no "Diário de Noticias"  "o belo timbre da voz, fresca, pura, doce, afinada", "revelando-se na boa emissão, na articulação perfeita numa dicção clara" e a "sedução dos acentos", os "contrastes expressivos" e a "graça espontânea", com o que interpretou os românticos; Laura Figueredo, no Correio da Noite, a sua"confiança em si, expressão, talento " e sua " voz agradável e harmoniosa", Francisco Rosa na "Folha Carioca", a sua "voz bem timbrada, agradável, de bom registro", Manuel Morais, na "Vanguarda" a "posse de requisitos especiais", que a tornam uma interprete de primeira classe para o gênero de câmera", como" finura, emoção, inteligência, dicção clara, estilo todo cambiante, conjunto" e, não somente isso, mas, o seu " nível raro de compreensão transmitindo-nos, como poucas vezes temos visto, a densa poesia schumanniana", e Dyla Josetti " A Manhã", sua " técnica irrepreensível, voz bem impostada, polida, numa escala bem igualada e de perfeita afinação", mais do que tudo isso, porém ficou impressionada com o "seu modo de transmitir o que canta, o que diz, pois o faz com alma, com o coração impregnando a sua arte de intensa poesia".


 Assim quando a vida atingir em todo o seu extraordinário poder de contaminação, Olga Maria Schroeter, por vocação e vontade, transformou-se numa artista, jovem, mas verdadeira, seguindo a melhor tradição de sua arte. Posso dizer que de amar a música, sendo ela, da musica, um instrumento, é ela mesma música, pois o dom de integrar-se na sua arte, deve ser a aspiração máxima de todo o artista, e isto narrado assim: sem meios tons da própria vida, que se vive e sofre, sem as vigílias, as lágrimas, a cabeça ardendo. Enfim, assim é que se faz uma cantora, ou melhor assim é que fez a cantora Olga Maria Schroeter, uma jovem e legitima soprano lírico, uma verdadeira e já invulgar artista.